Ares vs Atena: As Duas Faces da Guerra na Mitologia Grega

Em resumo

A mitologia grega antiga contém não um, mas dois deuses da guerra, e os gregos os consideravam polos opostos. Ares é o deus do caos selvagem e ensanguentado do combate; Atena é a deusa da guerra estratégica e deliberada em defesa da civilização.

Introdução

A mitologia grega antiga contém não um, mas dois deuses da guerra, e os gregos os consideravam polos opostos. Ares é o deus do caos selvagem e ensanguentado do combate; Atena é a deusa da guerra estratégica e deliberada em defesa da civilização. Ambos presidiam o conflito, ambos podiam ser invocados antes da batalha, e ambos aparecem com frequência nos mitos de heróis e guerras. Ainda assim, foram tratados com graus surpreendentemente diferentes de respeito e afeição pelos gregos que os cultuavam.

O contraste entre Ares e Atena é uma das dicotomias mais reveladoras de toda a religião grega. Ele reflete o entendimento grego de que a guerra tem duas faces fundamentalmente diferentes: a fúria cega e destrutiva do campo de batalha e a violência calculada e necessária do defensor da ordem. Reflete também valores mais amplos sobre razão versus paixão, civilização versus barbárie, e que tipos de poder merecem honra e culto.

Esta comparação examina ambos os deuses em profundidade: seus caracteres, seus papéis mitológicos, suas relações com os heróis e o que o conflito entre eles revela sobre a imaginação moral grega.

Origens e Nascimento

Os dois deuses surgiram de maneiras dramaticamente diferentes, e essas diferenças são mitologicamente significativas.

Ares nasceu da forma divina convencional: filho de Zeus e Hera, concebido em seu casamento. Seu nascimento o coloca firmemente dentro do drama doméstico do Olimpo, o filho do rei e da rainha, parte da ordem estabelecida. Ainda assim, Hera é uma figura materna ambígua: numa tradição, ela concebeu Ares sozinha (sem Zeus) ao tocar uma flor mágica, fazendo dele, em certo sentido, um produto do despeito e da independência, e não de uma união legítima.

O nascimento de Atena é extraordinário. Zeus, advertido por uma profecia de que um filho gerado por sua primeira esposa Métis (deusa do conselho e da sabedoria) o superaria em poder, engoliu Métis inteira enquanto ela estava grávida. Em devido tempo, Zeus passou a sofrer dores de cabeça agonizantes até que Hefesto (ou Prometeu, em alguns relatos) abriu seu crânio com um machado de bronze, e da fenda saltou Atena, já adulta e em plena armadura, com um grande grito que sacudiu os céus.

Esse mito de nascimento é enormemente significativo. Atena não apenas herdou a sabedoria, ela é a sabedoria de Zeus, nascida de sua mente. Ela é, literalmente, o produto da inteligência divina. Ares, nascido normalmente da união do pai-céu com a deusa-rainha, não tem nenhuma origem cósmica desse tipo. Ele é simplesmente o filho poderoso e difícil de pais difíceis.

Domínios: Sangue vs. Estratégia

A divisão da guerra entre Ares e Atena não foi acidental, ela correspondia a uma distinção real que os gregos reconheciam na própria natureza da guerra.

Ares governava a realidade física do combate: o ímpeto do frenesi de batalha (menos), a violência da lança e do escudo, a carnificina e o sangue de homens matando homens. Seus companheiros eram seus filhos Fobos (Medo) e Deimos (Terror), e a deusa da batalha Ênio. Ele não se importava com causas, lados ou desfechos, amava a própria matança. Na Ilíada de Homero, ele é comparado a uma nuvem estridente de ruído de guerra e descrito como ensanguentado e selvagem. Ele luta ao lado dos troianos não por princípio, mas porque Afrodite e sua mãe Hera se alinham daquele lado.

Atena governava a guerra estratégica: a sabedoria de planejar uma campanha, escolher o terreno certo, superar o inimigo em manobra e proteger a cidade defendida. Ela era a deusa da falange, a formação militar grega disciplinada e organizada, tanto quanto da sabedoria e dos ofícios. Era também Atena Promacos (aquela que luta na linha de frente), uma deusa guerreira que vestia armadura e portava lança. Mas sua guerra sempre tinha um propósito além da própria matança: a defesa da civilização, a proteção de heróis em missões justas, a vitória que leva a uma ordem duradoura.

Os gregos resumiam a distinção numa frase: Ares é a guerra que destrói; Atena é a guerra que constrói.

Personalidade e Caráter

Os caracteres de Ares e Atena dificilmente poderiam ser mais diferentes, e ambos são traçados com notável clareza psicológica nas fontes antigas.

Ares é volátil, impulsivo e destemido a ponto da estupidez. Na Ilíada de Homero, a fonte mais importante para ambos os deuses, ele é ferido duas vezes em batalha e expulso do campo aos gritos nas duas ocasiões. Primeiro, o herói Diomedes (auxiliado por Atena) o atinge com uma lança no ventre, e Ares grita com um ruído como o de dez mil soldados e foge para o Olimpo, onde Zeus o repreende com desdém. Depois, os gigantes Oto e Efialtes o aprisionaram numa jarra de bronze por treze meses, da qual foi resgatado apenas por Hermes. Seu constrangimento com essas derrotas é completo.

Atena, em contraste, é retratada de forma consistente como calma, lúcida e deliberada. Ela aparece aos heróis disfarçada para lhes dar conselhos essenciais; guia Odisseu de volta ao lar ao longo de vinte anos de provações; ajuda Perseu a matar Medusa fornecendo o escudo polido que ele usa como espelho; defende Orestes no tribunal. Quando entra em batalha na Ilíada, faz isso de forma metódica, e quando luta diretamente contra Ares (ela arremessa uma grande pedra e o derruba), o resultado é quase desdenhoso, uma demonstração unilateral de poder superior aplicado com perfeita economia.

Até suas vidas emocionais são espelhos uma da outra: Ares age por desejo e fúria; Atena é a única grande Olimpiana, além de Héstia, inteiramente celibatária e não movida pela paixão romântica.

A Rivalidade entre Eles no Mito

Ares e Atena se enfrentam diretamente várias vezes na mitologia grega, e Atena vence praticamente todas elas. Esses encontros não são simples disputas cósmicas, carregam o peso dos próprios valores dos gregos sobre o tipo de guerra que vale a pena celebrar.

Na Ilíada de Homero, ambos os deuses são ativos na Guerra de Troia, mas em lados opostos: Atena apoia os gregos (em especial Aquiles e Odisseu), enquanto Ares apoia os troianos (em grande parte por instigação de Afrodite). No Canto 21, os deuses lutam diretamente entre si naquilo que os estudiosos chamam de Teomaquia (a Batalha dos Deuses). Ares ataca Atena; ela desvia de sua lança, pega uma grande pedra negra e o atinge no pescoço com ela. Ele desaba ao chão, cobrindo sete acres com seu corpo imenso. Atena zomba dele: Tolo, ainda não aprendeste o quanto sou mais forte do que tu?

A disputa pela própria Atenas é outra forma de sua rivalidade. Atena e Poseidon (não Ares) competiram pelo patrocínio da cidade, mas o episódio reforça o princípio: Atenas, o maior centro de civilização, sabedoria e artes da Grécia, escolheu o presente de Atena (a oliveira, símbolo de paz e trabalho produtivo) em vez da fonte de água salgada de Poseidon (poder natural bruto). A lição era constante: razão e civilização triunfam sobre a força bruta.

No mito dos gigantes Aloádas (Oto e Efialtes), o aprisionamento de Ares numa jarra de bronze, resgatado não por qualquer batalha divina, mas pela astúcia de Hermes, reforça ainda mais sua vulnerabilidade à esperteza e ao engano.

Heróis, Culto e Papel Cultural

As reputações muito diferentes dos deuses se refletem em como eles se relacionam com os heróis gregos e em como eram cultuados.

Atena é a deusa padroeira dos maiores heróis da mitologia grega. Ela guia Odisseu ao longo de toda a Odisseia; arma e aconselha Perseu; ajuda Héracles em vários de seus Trabalhos; é a padroeira de Belerofonte. Seus heróis tendem a vencer tanto pela inteligência quanto pela força. Ela é também a padroeira da própria Atenas, a cidade que recebeu seu nome, e o símbolo da identidade ateniense, da democracia e da realização cultural. O grande Partenon, na Acrópole, foi dedicado a Atena Partenos (Atena, a Virgem), abrigando uma colossal estátua de ouro e marfim de Fídias, uma das supremas obras-primas da arte antiga.

Ares não tem heróis mortais famosos como padroeiros ou favoritos. Seu culto, embora presente por todo o mundo grego, era menos proeminente e menos afetuoso do que o de Atena. Sua associação mais famosa é com a Trácia, o território selvagem e bárbaro ao norte da Grécia, que os gregos associavam ao clima rigoroso e à violência rude. O Areópago (Colina de Ares), em Atenas, foi o local do mais antigo tribunal, onde o próprio Ares foi julgado pelo assassinato de Halirrótio, filho de Poseidon, até Ares, em Atenas, estava sujeito à lei.

A única região onde Ares era celebrado era Esparta, a cidade-estado cuja cultura era organizada de forma mais puramente em torno da excelência militar. Mesmo ali, os espartanos parecem ter prezado a guerra disciplinada e estratégica, e não a mera sede de sangue, sugerindo que até o Ares de Esparta era de certo modo ateniense em espírito.

Contrapartes Romanas: Marte e Minerva

A recepção romana desses dois deuses ilumina o contraste ainda mais, ao reverter quase por completo o status de Ares.

Em Roma, Marte (o Ares romano) não era o deus menos respeitado, mas o segundo mais importante, superado apenas por Júpiter. Essa elevação reflete a identidade de Roma como um império militarista e expansionista. Marte era o pai divino de Rômulo (fundador de Roma), o patrono do exército romano e a encarnação das virtudes militares (virtus) que Roma via como sua característica definidora. O mês de março recebe seu nome. Seus sacerdotes, os Sálios, executavam elaboradas danças rituais em armadura pelas ruas de Roma a cada primavera. Trata-se de uma transformação radical: o deus da guerra menos amado do mundo grego tornou-se a segunda divindade padroeira de Roma.

Minerva (a Atena romana) também era altamente respeitada, completava a Tríade Capitolina com Júpiter e Juno e era a padroeira de artesãos, artífices, médicos e professores, além de seu papel marcial. Mas ela não dominava Roma como Atena dominava Atenas. Roma, ao contrário de Atenas, não considerava a inteligência e a sabedoria estratégica sua principal virtude cívica, preferia o poder militar direto que Marte encarnava.

Essa comparação revela algo importante: o status relativo de Ares e Atena não era uma verdade universal sobre deuses da guerra, mas um juízo de valor especificamente grego, que a civilização romana, com sua autoimagem diferente, reverteu substancialmente.

Veredito / Resumo

Ares e Atena não são simplesmente dois deuses da guerra, são um argumento moral feito em forma mitológica.

Ares representa a guerra como ela de fato é em seu pior estado: selvagem, indiscriminada, embriagada de sangue e destruição, sem se importar com justiça ou desfecho. Os gregos não fingiam que tal guerra não existia, conheciam-na intimamente. Mas se recusavam a celebrá-la. Ares é o deus que se obtém quando a violência se torna um fim em si mesma, quando exércitos lutam pelo amor à matança, e não por qualquer propósito que valha a pena alcançar.

Atena representa a guerra como ela pode ser em seu melhor estado: deliberada, disciplinada, inteligente e a serviço de algo maior do que ela mesma, a defesa da cidade, a proteção dos inocentes, a vitória da justiça sobre o caos. Ela é a guerreira que sabe por que luta, e esse saber a torna invencível diante de um oponente que luta sem razão alguma.

Os gregos escolheram Atena. Construíram para ela o maior templo do mundo antigo, deram seu nome à sua maior cidade e fizeram dela a padroeira de seus heróis. Não aboliram Ares, reconheceram-no, mas eram claros quanto a qual face da guerra sua civilização aspirava a vestir.

Nesse contraste, a mitologia grega oferece uma lição que permanece tão relevante hoje quanto há três mil anos: a diferença entre a violência que serve a um propósito justo e a violência que serve apenas a si mesma não é meramente tática, mas moral, e é a distinção mais importante que uma civilização pode fazer.

Perguntas Frequentes

Por que existem dois deuses gregos da guerra?
A mitologia grega distinguia dois aspectos fundamentalmente diferentes da guerra: a violência cega e selvagem do frenesi de batalha (Ares) e a defesa inteligente e estratégica da civilização (Atena). Essa concepção dupla reflete a crença dos gregos de que a guerra em si era moralmente neutra, era o propósito e o caráter do guerreiro que determinavam se a guerra era nobre ou bárbara.
Ares e Atena lutaram um contra o outro no mito?
Sim, mais notavelmente na <em>Ilíada</em> de Homero. Na batalha divina conhecida como Teomaquia (Canto 21), Ares atacou Atena com sua lança, mas ela desviou e o atingiu com uma grande pedra, derrubando-o ao chão. Atena venceu facilmente e zombou dele. Ela também havia ajudado antes o herói Diomedes a ferir Ares em batalha, mais cedo no poema.
Por que Ares era tão desrespeitado na mitologia grega?
Ares era desrespeitado porque encarnava a violência sem propósito, a guerra por si mesma, sem estratégia, justiça ou propósito moral. Ele foi ferido duas vezes e expulso do campo de batalha na <em>Ilíada</em>, uma por um herói mortal (Diomedes, auxiliado por Atena) e outra aprisionado por mortais (os gigantes Oto e Efialtes). Até Zeus, seu pai, o chama de o mais odioso de todos os deuses na <em>Ilíada</em>.
De que Atena é deusa além da guerra?
Atena era uma das mais multifacetadas dos Olimpianos. Além da guerra estratégica, era deusa da sabedoria, dos ofícios (tecelagem, cerâmica, carpintaria), da justiça e da civilização em sentido amplo. Era padroeira da cidade de Atenas, da qual toma o nome (ou à qual deu o nome, a conexão era entendida nos dois sentidos). Era também Atena Partenos (a Virgem), Atena Promacos (a Combatente da Linha de Frente) e Atena Ergane (a Artesã).
Como o Ares grego difere do Marte romano?
O Marte romano era muito mais respeitado do que o Ares grego. Na religião romana, Marte era o segundo deus mais importante depois de Júpiter, o pai divino de Rômulo (fundador de Roma) e a encarnação da virtude militar romana. O mês de março recebe seu nome. Ares, no mito grego, era retratado de forma consistente como um dos Olimpianos menos admiráveis, sanguinário, covarde e facilmente derrotado. O mesmo papel divino foi radicalmente reinterpretado para refletir a relação distinta de cada cultura com a guerra.

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